Paxixi em Foco

O que a leitura de Taunay revela sobre o território do Paxixi hoje

O que a leitura de Taunay revela sobre o território do Paxixi hoje
Author
Mazziotti23/12/202512 min de leitura
O que a leitura de Taunay revela sobre o território do Paxixi hoje
Tuco
Oi! Sou o TUCO, guia do território. Deixa eu te mostrar o melhor do Paxixi!

Quando um território é descrito pela Literatura, ele deixa de ser apenas espaço físico e passa a existir também como construção cultural. No caso do sul do antigo Mato Grosso, essa passagem ocorreu ainda no século XIX, quando Alfredo d’Escragnolle Taunay registrou rios, serras, campos e caminhos que hoje reconhecemos como parte da região de Aquidauana, da Serra de Maracaju e do entorno do Território do Paxixi.

Décadas depois, leituras acadêmicas contemporâneas passaram a revisitar esses textos para compreender o que eles dizem não apenas sobre o passado, mas também sobre a permanência do território no presente. O sertão descrito por Taunay não desapareceu: ele se transformou, mas manteve estruturas fundamentais que ainda moldam a experiência de quem percorre essa região.

É nesse ponto que a leitura proposta pelo professor José Mário Jovanelli se torna decisiva. Pesquisador da área de Letras, Jovanelli desenvolveu sua análise a partir de sua dissertação de mestrado em Letras pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), examinando Histórias Brasileiras não como simples ficção nem como documento histórico bruto, mas como construção narrativa elaborada a partir da distância entre a experiência vivida e o momento posterior da escrita.

José mario Jovanelli Mestre pala UEMS roteiros do paxixi. Arquivo pessoal. territorio do paxixi
Professor Me. José Mário Jovanelli em leitura de obra de Taunay. Reprodução/acervo pessoal. Direitos reservados ao autor.

Essa chave de leitura permite reler Taunay com mais precisão e lançar nova luz sobre o território que hoje abriga o Paxixi.

Histórias Brasileiras e as referências ao território dos morros

É importante esclarecer que Histórias Brasileiras trata-se de um livro de contos de Alfredo d’Escragnolle Taunay, composto por quatro narrativas ficcionais e uma peça teatral. Os contos são Ierecê, a guaná; Camiran, a quiniquinao; O vigário das dores; e Juca, o tropeiro; além da peça Da mão à boca se perde a sopa, que não foi objeto da análise literária aqui considerada.

Entre essas narrativas, o conto Camiran, a quiniquinau merece destaque por trazer referências diretas a povos indígenas e a paisagens associadas à região dos morros, funcionando como exemplo expressivo da forma como Taunay inscreve o território — humano e geográfico — no interior de sua construção literária.

A paisagem como documento e como experiência

Um dos aspectos centrais da leitura de Jovanelli é a ideia de que a paisagem descrita por Taunay funciona simultaneamente como documento histórico e como experiência sensível. O autor do século XIX não descreve o sertão de forma abstrata ou genérica. Ele registra rios com correnteza específica, serras com perfis reconhecíveis, campos que se estendem até onde a vista alcança.

Essa forma de narrar não é casual. Taunay foi engenheiro e militar, formado para observar, medir e orientar-se no espaço. Ao mesmo tempo, foi um escritor atento às sensações do deslocamento, ao impacto físico e emocional da paisagem e à relação direta entre natureza e vida humana. O território não aparece como pano de fundo neutro, mas como protagonista da narrativa.

Essa leitura ajuda a compreender o Paxixi hoje. A serra, os vales e os rios continuam condicionando trajetos, impondo limites e moldando experiências. A literatura do século XIX, lida com rigor, permite reconhecer essa continuidade.

Experiência vivida e escrita elaborada

Outro ponto fundamental da análise de Jovanelli é a distinção entre o momento da experiência e o momento da escrita. Taunay percorreu o sertão principalmente na década de 1860, em um contexto marcado pela Guerra do Paraguai. Já a organização literária dessas vivências ocorreu anos depois, na década de 1870.

Isso significa que Histórias Brasileiras não é um diário imediato, mas uma elaboração posterior. Memória, seleção de episódios e construção narrativa fazem parte do processo. Essa distância impede leituras ingênuas e ajuda a compreender a obra como literatura com lastro histórico, não como registro mecânico dos fatos.

Essa distinção é extremamente atual quando pensamos o território do Paxixi. O que se vive hoje também será, um dia, memória. A forma como o território é narrado influencia diretamente a maneira como ele será compreendido no futuro.

O sertão vivido, não imaginado

Jovanelli enfatiza que Taunay escreveu sobre um sertão vivido, não imaginado. O autor esteve no território, enfrentou deslocamentos difíceis, cruzou rios, subiu serras e conviveu com diferentes personagens. O sertão não aparece como invenção exótica, mas como espaço real de trabalho, risco e adaptação.

Essa característica aproxima a obra de Taunay da experiência concreta do território e afasta leituras romantizadas. O sertão é belo, mas também exigente. A paisagem encanta, mas impõe limites. Essa visão dialoga diretamente com o Paxixi contemporâneo, que não se presta a usos artificiais ou simplificadores.

Um livro de 1874 e o território inscrito no tempo

Um ponto factual essencial — presente no texto original e mantido aqui — é o marco editorial da obra. Histórias Brasileiras foi publicado no Rio de Janeiro, em 1874, assinado com o pseudônimo Sylvio Dinarte. Trata-se de um livro com edição identificável, de época, escrito por alguém que viveu o sertão e depois o transformou em narrativa.

Retrato de Alfredo d’Escragnolle Taunay, escritor e militar do século XIX que registrou paisagens do sul do antigo Mato Grosso na literatura brasileira, território do Paxixi
Histórias Brasileiras, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, obra publicada no século XIX a partir de experiências vividas no sertão do antigo Mato Grosso.

Esse dado ancora o território no tempo. Não estamos diante de uma tradição oral vaga, mas de um registro literário publicado no século XIX. A partir desse momento, rios, serras e caminhos do interior passam a integrar a memória cultural brasileira.do.

A década de 1860, a guerra e os deslocamentos

Grande parte das experiências narradas por Taunay está ligada à década de 1860, período marcado pela Guerra do Paraguai. O sul da então Província de Mato Grosso era uma região de fronteira, atravessada por tropas, acampamentos e deslocamentos militares.

Jovanelli chama atenção para a importância de situar o território nesse contexto. Antes da famosa expedição que culminaria na Retirada da Laguna, houve acampamentos e movimentos de tropas que passaram pela região. Os caminhos, rios e morros descritos por Taunay eram rota, abrigo, obstáculo e referência.

Essa contextualização não transforma o texto em narrativa militar, mas ajuda a compreender que o território não era neutro. Ele estava inserido em tensões políticas, logísticas e humanas que marcaram profundamente a paisagem.

Povos originários e o território humano

Outro elemento fundamental para compreender o território do Paxixi — e que ganha força a partir das observações de Jovanelli — é a presença dos povos indígenas como parte constitutiva da paisagem humana.

Terenas e Quiniquinaus não aparecem nas narrativas apenas como figuras laterais ou exóticas, mas como grupos que ocupavam, conheciam e organizavam o território muito antes da chegada das expedições militares e dos deslocamentos associados ao Estado imperial.

Esses povos mantinham formas próprias de relação com a terra, com os rios e com a serra, estabelecendo rotas, áreas de uso, espaços de moradia e redes de convivência que moldavam o território de maneira profunda. A Serra de Maracaju e seus arredores não eram um vazio a ser atravessado, mas um espaço vivido, significado e disputado.

As relações entre indígenas, militares e viajantes envolviam negociação, tensões, acordos circunstanciais e conflitos, compondo um quadro complexo de convivência na fronteira interiorana do século XIX.

Ao reconhecer essa presença indígena, o território deixa de ser visto apenas como cenário natural ou palco de eventos históricos pontuais. Ele passa a ser entendido como espaço humano contínuo, atravessado por diferentes temporalidades e formas de pertencimento.

Essa leitura é essencial para evitar uma visão simplificada ou romantizada do Paxixi, que desconsidera as camadas humanas e culturais que precedem o turismo contemporâneo.

Reconhecer essa dimensão indígena não é um gesto simbólico vazio. É um passo fundamental para uma leitura mais responsável do território hoje, capaz de enxergar a paisagem como resultado de relações históricas profundas entre natureza, cultura e vida social.

Camisão e a memória nos nomes

A história do território não se manifesta apenas nos textos literários ou nos relatos históricos; ela também está inscrita nos nomes dos lugares. O distrito de Camisão é um exemplo claro disso.

O nome remete ao Coronel Camisão, figura associada às expedições militares do período, e funciona como marca permanente da passagem histórica dessas tropas pela região.

A toponímia, nesse caso, atua como um arquivo a céu aberto. Mesmo quando o evento que deu origem ao nome se distancia no tempo, a palavra permanece, repetida em placas, mapas e conversas cotidianas. Assim, a memória histórica deixa de estar restrita aos livros e passa a fazer parte do próprio uso do território.

Para quem percorre a região hoje, compreender a origem do nome Camisão transforma a experiência espacial.

O lugar deixa de ser apenas um ponto geográfico e passa a ser reconhecido como espaço marcado por deslocamentos, decisões estratégicas e episódios que integraram a história mais ampla do país. Ler a paisagem passa, também, por decifrar esses nomes e compreender o que eles silenciosamente carregam.

O Rio Aquidauana nomeado na narrativa

Um dos aspectos mais fortes da obra de Taunay, e que estabelece uma ponte direta entre passado e presente, é a menção explícita ao Rio Aquidauana pelo nome.

Em uma das narrativas, o rio aparece associado ao acampamento, à abundância de água e à possibilidade de recompor o corpo após longas marchas pelo sertão.

Essa referência não é simbólica nem genérica. O Aquidauana surge como elemento concreto da experiência, um rio real, reconhecível, que cumpre funções práticas e vitais.

Para o leitor contemporâneo, esse detalhe é poderoso porque elimina qualquer abstração: trata-se do mesmo rio que ainda hoje estrutura paisagens, deslocamentos e formas de uso do território.

O Aquidauana, no século XIX, já era eixo de orientação, limite natural e fonte de sobrevivência. No presente, continua desempenhando papel central na identidade regional. Essa continuidade confere densidade simbólica ao território do Paxixi e reforça a ideia de que a paisagem atual não é dissociada de sua história.

Turismo contemplativo e turismo interpretativo

Todo esse conjunto de informações — literatura, história, presença indígena, toponímia e paisagem — permite avançar com mais consistência para a ideia de turismo interpretativo. Não se trata de transformar a visita em uma aula formal ou em um discurso acadêmico, mas de oferecer contexto e leitura de paisagem.

Subir um morro, atravessar um vale ou observar um rio ganha outra dimensão quando se compreende que esses elementos já orientaram deslocamentos militares, abrigaram acampamentos, sustentaram populações indígenas e foram registrados pela literatura há mais de um século. A experiência deixa de ser apenas visual e passa a ser também intelectual e sensível.

Nesse sentido, o turismo interpretativo não substitui o contemplativo, mas o aprofunda. A paisagem continua bela, mas passa a ser lida. O visitante não apenas vê; ele entende, relaciona e reconhece o território como espaço histórico vivo.

Relatos locais e cautela histórica

Circulam entre moradores, praticantes de atividades na região e pessoas que atuam na base do Morro do Paxixi relatos sobre a possível existência de vestígios materiais associados ao deslocamento de tropas, como fragmentos de objetos bélicos encontrados em pontos específicos do território. Esses relatos fazem parte da memória local e indicam a riqueza histórica da região.

No entanto, do ponto de vista histórico, é essencial tratar essas informações com cautela. Até o momento, não há registro documentado ou pesquisa sistemática que confirme oficialmente esses achados. Apresentá-los como indícios ou relatos locais preserva o rigor histórico e evita transformar hipóteses em fatos consumados.

Essa postura não enfraquece o texto; ao contrário, fortalece sua credibilidade e abre espaço para investigações futuras, que podem aprofundar ainda mais a compreensão histórica do Paxixi.

Paisagem, memória e continuidade

Ao reler Taunay a partir da lente crítica proposta por Jovanelli, torna-se evidente que o território do Paxixi é continuidade, não invenção recente. A paisagem que hoje se apresenta ao visitante é herdeira de processos históricos longos, nos quais rios, serras e caminhos desempenharam papel estruturante.

Rios continuam a organizar o espaço, serras seguem delimitando horizontes e vales, e formas do relevo permanecem como referências visuais e simbólicas. Essa permanência não elimina as transformações ocorridas ao longo do tempo, mas estabelece um fio de continuidade entre passado e presente.

Reconhecer essa continuidade é essencial para construir uma relação mais responsável com o território. Uma relação baseada não apenas no consumo da paisagem, mas na compreensão de sua memória, de sua complexidade humana e de sua identidade histórica.

Conclusão

A leitura contemporânea de Histórias Brasileiras revela que o território descrito por Taunay não pertence apenas ao passado. Ele permanece vivo na paisagem, nos nomes e na experiência de quem percorre a região hoje.

Para o Paxixi, essa leitura mostra que o território já carrega história suficiente para sustentar experiências profundas e conscientes. Compreender essa herança literária e histórica é uma forma de aprender a ler o território — e, ao lê-lo, vivê-lo melhor.


E você, leitor?

Você acredita que conhecer a história e a literatura associadas ao território muda a forma de vivenciar o Morro do Paxixi hoje?
Que tipo de experiência você gostaria de encontrar ao visitar a região: trilhas interpretativas, roteiros históricos, leitura de paisagem ou algo diferente?
Deixe seu comentário e ajude a construir novas formas de ver e viver o Paxixi.

Assine nossa Newsletter

Inscreva-se para receber conteúdo sobre turismo, eventos, natureza e experiências reais de Aquidauana e Região, direto no seu e-mail.

Sem spam. Apenas conteúdo relevante do território. Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Fábio Mazziotti

Curador editorial do Roteiros do Paxixi, projeto dedicado à leitura do território e à valorização das paisagens, da cultura e das experiências turísticas da região de Aquidauana, Camisão, Piraputanga, Morro do Paxixi e Serra de Maracaju, no Pantanal Sul.

Curadoria editorial sobre o Território do Paxixi. Ver todos os textos de Mazziotti